O tatame

Felipe Cavani - 2017-06-18 00:33:00 -0300

No Chefs Table, uma série do Netflix sobre chefs renomados e suas lutas, derrotas e vitórias na vida e no mundo da gastronomia, tem uma cena em que o Chef Alex Atala entra em um tatame, ele devidamente trajado, primeiro faz reverência para o tatame e então vai até seus companheiros de luta e cumprimenta cada um deles. A série é muito bem feita e a qualidade cinematográfica dela é maravilhosa, é emocionante. Ver a dedicação daquelas pessoas à arte suave, mesmo que de uma forma simples, já que não foi filmado um treino inteiro, é grandioso.

Quero deixar tudo isso de lado e me concentrar apenas no ato da reverência ao tatame. Eu acho… Não! Esse deveria ser o momento mais importante do treino ou da luta. Pois é o momento que você vestido com seu kimono surrado se propõem a esquecer de tudo e se dedicar exclusivamente por umas 2h ou mais a algo que irá te deixar dolorido, arrebentado, suado, cansado, em fim, destruído física e psicologicamente.

É como se você abaixasse e pusesse tudo de lado. Nesse momento singular onde abdicamos dos nossos defeitos, sejam eles de caráter, ou de qualquer outra coisa, deixamos nossos problemas familiares, pessoais e do trabalho. Deixamos nossas limitações físicas de lado, e sentiremos a dor nos nossos corpos já com uma certa idade. E colocamos na nossa cabeça que é hora de aprendermos e lutarmos, não importa o que aconteceu ontem, não importa o que vai acontecer agora no treino ou o que vai acontecer amanhã, em casa, no trabalho, na rua, onde quer que você esteja. Devemos sempre estar prontos para a luta.

Fácil?

Quem é capaz de conseguir isso?

Como sobrevivemos a algo tão duro?

São algumas questões que surgem ao pensarmos um pouco sobre isso.

Para entender essas perguntas temos que fazer um devaneio por um conceito que é matemático.

Jiu-jitsu é um modelo da vida. Um modelo é um representação de algo real e como toda a representação ele obrigatoriamente passa por simplificações que podem ser boas ou não. Essas simplificações são coisas que você tira ou modifica mas de forma a não perder as características principais do objeto real. Então o que temos dessas simplificações e modificações é o jiu-jitsu. A analogia mais simples seria com relação a luta. Nós temos nossas lutas diárias mas se treinarmos e persistimos venceremos elas, ou aprenderemos. No jiu-jitsu a mesma coisa, temos nossas lutas… Se para ambos os casos treinarmos forte nós não faremos feio, por isso a máxima que é melhor chorarmos no treino do que na luta. Podemos também considerarmos a analogia do treino com o preparo para certas coisas. Outra seria a importância dos companheiros de treino. E por ai vai…

A primeira questão é simples, como a vida não é fácil o jiu-jitsu também não é. Mas se fosse simplesmente assim todos abdicariam da vida e nunca pensariam em fazer jiu-jitsu. Felizmente os dois apresentam beleza e com a mentalidade certa é possível caminhar por essa estrada ora complicada, ora fácil, ora triste, ora alegre, mas verdadeira e natural e conseguir vencer. Não é fácil mas é gratificante.

A segunda questão: somos capazes de sobreviver a isso primeiramente através da graça e da bondade de Deus. E segundo, se você consegue ou quer viver uma boa vida você terá a energia suficiente para aguentar aos treinos. Vemos por ai na internet pessoas com mais de quarenta anos que praticam jiu-jitsu, lógico que alguma espécie de preparação física foi dada a elas. Também, o seu gás não será o mesmo que de um jovem, mas vocês vão rolar e rolaram melhor ainda se você aprender a impor seu ritmo ao jogo. Respondendo a questão: qualquer um que tiver a mente pronta para isso poderá praticar jiu-jitsu.

Terceira questão: Nós sobreviveremos aos treinos e as lutas se tivermos a mentalidade correta e se treinarmos seriamente fazendo os exercícios e não faltando aos treinos. Faltar ao treino é muito sério, ainda mais para pessoas com seus 40 anos, parece que o corpo simplesmente se recusa a funcionar no treino seguinte. E não se preocupe, os treinos vão se incorporar a sua vida de tal forma que você terá necessidade deles e só irá faltar se for uma coisa muito séria.

É notável que considerando que você tem uma composição corpórea razoável você poderá começar a praticar de imediato e aqui razoável é uma palavra muito flexível, você pode ser praticamente qualquer um. Disso você já deve ter concluído que o fator psicológico é realmente decisivo para tudo isso. Aquele mínimo você precisa ter, ai o resto será moldado durante o treino. É lógico muitas lágrimas metafóricas e reais virão; lidar com o ego não é brincadeira, você vai se frustrar e vai doer muito.

Mas toda essa dor, todo esse sofrimento, isso tudo é consequência de se abaixar ao impiedoso tatame aonde as pessoas são distintas.

Quando você termina sua reverência, ao final de todo esse ato uma coisa é certa: você se levanta mais próximo de ser um lutador de jiu-jitsu, um guerreiro, implacável.

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