O êxtase - arte e literatura

Felipe Cavani - 2017-06-13 15:00:00 -0300

Acho que este é o artigo que vou escrever com mais insegurança. Não tenho muito conhecimento sobre literatura muito menos sobre arte. Acho que não vou falar sobre isso, pensando bem. Vou falar sobre algo que está por trás da arte e da literatura e vou me aventurar a extrapolar isso para outra área, a programação, a qual eu entendo um pouco, que é uma arte também e necessita de criatividade extrema. Programação não é um termo adequado prefiro usar a construção de algoritmos.

O que muitas dessas pessoas, artistas, escritores, músicos e etc tem em comum? São pessoas abençoadas com um dom específico. Mas esse dom pode vir com uma maldição. Elas são criativas ao extremo, são marcos em sua área, são impetuosas, são talentosas, são grades! Tem um poder que transcende a capacidade humana normal, mas mesmo assim muitas vezes são taxadas de loucas. Pouco compreendidas e desprezadas, muitas vezes esquecidas e só descobertas depois de muito tempo.

Starry Night - Van Gogh

A algum tempo atrás fiquei sabendo pelo Twitter sobre o filme “Touched with fire” (Tocados pelo fogo) de Paul Dalio que tem forte influência do livro homônimo da autora Kay Jamison (sem edição em língua portuguesa). Tanto um como outro exploram a criatividade e sua origem entre um certo grupo de autores e artistas.

O livro eu estou lendo e já estou impressionado pelo rigor da obra, muito bem escrita. O filme já assisti algumas vezes e fiquei muito impressionado pelas lutas que o casal passa para sobreviver a vida e ao transtorno afetivo bipolar, isso mesmo, sem rodeios, eles são bipolares.

Nossos dois personagens, a princípio foram tocados pela mania, fase do transtorno bipolar onde a pessoa se torna muito agitada, as vezes com ideias incoerentes e outras atitudes que estão fora da realidade de uma pessoa comum podem estar presentes. Mas é uma fase com uma energia tremenda, a pessoa pode se tornar extremamente criativa, sentindo as emoções como nunca. Chegando quase ao êxtase durante a produção de uma obra, o que leva algumas até a buscarem o uso de substâncias pois essas realmente apreciam ou estão viciadas no pico da mania. A outra fase vem como a inversa da fase anterior e é muito desagradável, a fase depressiva, que leva os personagens a apatia total. Outro filme que retrata a depressão de forma esplêndida é o Melancholia de Lars von Trier, onde a personagem principal lida bravamente com o inevitável, mesmo estando deprimida. Sendo mais específico é a única personagem que tem capacidade para lidar com aquilo.

O filme, “Tocados pelo fogo”, mostra esses dois lados, que são os dois extremos do transtorno afetivo bipolar. São pessoas que lutam contra isso de forma heróica enquanto tentam ter vidas produtivas. Não são simples lutas, como as lutas diárias que pessoas comuns tem contra as dificuldades do dia-a-dia. São verdadeiras batalhas onde seu corpo está contra vocês e você tem que domá-lo, para ficar próximo da normalidade e não fazer nenhuma besteira. Muitas vezes é assim: você não pode confiar nos seus sentidos e pensamentos, pois eles estão sobrecarregados ou o contrário. Tendo este input errôneo você deve aprender a filtrar as coisas, descobrir quando seu cérebro está te enganando e com isso dar uma resposta que seja compatível com a realidade e não uma resposta que seja do mesmo tamanho, por exemplo, da irritação que você esta sentindo, por uma coisa que não é realmente aquilo. Seria como quando você está ouvindo música em alto volume com os fones de ouvido e alguém te pergunta algo e você responde a pleno pulmão sem a mínima necessidade.

Principalmente o livro e também o filme, mostram a ligação entre criatividade e o transtorno. No caso do filme, devido a riqueza de emoções e acontecimentos, a quantidade de material para produzir um trabalho artístico é muito grande, e é o que os dois personagens fazem. Temos um livro de poesias extremamente belo e com uma carga emocional muito grande, já que ele fala do filho deles.

O livro de Kay Jamison (ele e ela aparecem no filme) quer provar o ponto e mostrar a todos que alguns grandes músicos e autores sofriam do transtorno. Até onde eu li ela mostra de forma precisa muitas informações sobre tudo isso e acaba enriquecendo muito a vida de uma pessoa normal e de um bipolar. Um exemplo do livro é Van Gogh (1853-1890), bipolar e pintor, grande pintor. Infelizmente ele não teve a mesma oportunidade que os bipolares modernos tem de se tratarem com um grande gama de drogas, sendo que a principal é o lítio (na verdade carbonato de lítio e este tem uma história a parte como sendo a droga que ela é; teve início como uso psiquiátrico em 1948 por John Cade). Drogas essas que a princípio trazem torpor, para algumas pessoas, mas depois que o corpo se acostuma com elas você passa a ter uma vida praticamente que normal. O que é um dos argumentos da autora que foi apresentado no filme. Mas deixo bem claro que isso não é fácil, nem um pouco fácil, pois é necessário um médico muito bom e muita força de vontade do paciente, para que você atinja a estabilidade e mesmo assim mantenha a criatividade em alta.

A criatividade é alguma coisa muito valiosa para ser sacrificada, é muito difícil abrir mão dela, ainda mais para alguém que trabalha com isso, músico, autor, artistas, designs… E por que não os que criam algoritmos? Os matemáticos e cientistas da computação?

Criar um algoritmo, ou uma sequência de passos que leva a um resultado a partir de um conjunto de dados de entrada, é um processo exato, não subjetivo, mas que exige um tanto de talento do seu autor. E é aí que entra a criatividade e a intuição, para resolver situações que muitas vezes não se revelam óbvias nas equações, mas que com uma pequena mexida pode melhorar em muito o algoritmo.

Um pequeno exemplo, a transformada de Fourier. Essa “conta” descobre para você quais as frequências e a quantidade de energia presente em “cada” frequência em, por exemplo, uma música (na verdade no gráfico de amplitude versus tempo). Se não fosse pela criatividade de alguém, nós estaríamos até hoje fazendo um cálculo interminável sendo que esse mesmo cálculo pode ser feito quase que instantaneamente. Como aplicação disso… Temos tudo que está relacionado com áudio em computadores.

Gostaria que algum autor sondasse os anais da computação desde Babbage e Ada, ou até antes, acadêmicos e filósofos e descobrisse que existiram alguns bipolares também na computação. Que ela está cheia de pessoas exóticas isso é fato… Mas…

Em dias modernos, onde a inclusão, a acessibilidade, a compaixão, onde as minorias tem voz, os bipolares também ganham espaço e começam a ser incluídos em muitas áreas, além de autores e músicos, para citar alguns, mas devo incluir todos que trabalham com o processo criativo. Muito preconceito ainda paira sobre as doenças mentais, algumas vezes devido a falta de conhecimento, associada ao medo e outras vezes por pura maldade das pessoas que descriminam por benefício próprio ou puro sadismo. Vejo no Twitter muito sobre doenças mentais, pessoas dispostas a lutar por uma causa e, também, mais importante ainda, pessoas dispostas a darem suporte umas as outras. Sendo que muitas dessas são autores de blogs e alguns até de livros. O processo criativo está aí, muitas pessoas são capacitadas e boas, prontas para participar, compartilhar de suas dores e de sua criatividade, assim construindo um mundo melhor.

Agora que escrevi sobre parte do êxtase na arte, talvez eu possa, se conseguir, algum dia, escrever sobre o êxtase religioso e quem sabe sobre o sexual, não sei qual é o mais difícil, mas fica o desafio.

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Sobre o autor

Felipe é cientista da computação, fotógrafo e bipolar, mas esses títulos não definem quem realmente ele é. Também é pai de dois filhos maravilhosos e é casado com a incrível Cris. Foi diagnosticado bipolar tardiamente aos 29 anos. Não foi um diagnóstico fácil, muita coisa aconteceu desde 2002 quando teve sua primeira crise de depressão diagnosticada. Passou por várias crises que foram vencidas com a ajuda de sua tremenda e talentosa psiquiatra e de sua também tremenda e talentosa psicóloga. Aprendeu a tomar regularmente seus medicamentos, depois de muitas lutas, não importando seu humor ou o que os outros falam disso. Segue dia a dia procurando por um emprego adequado, programando e quando possível fotografa. Mais recentemente resolveu treinar jiu-jitsu, na verdade fez isso por culpa da sua psicóloga. Com o jiu-jitsu tem enfrentado muitos de seus medos de modo prático e aprendido a lidar com a sua ansiedade, além de realizar um ótimo condicionamento físico e ser exemplo para seu filho mais velho que também pratica a arte suave. Ele é muito grato a Deus por ser uma pessoa melhor hoje do que ontem, mesmo através deste caminho bizarro.

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