Meu avô

Felipe Cavani - 2017-06-12 22:05:00 -0300

Pode ser meio estranho falar meu avô. Mas qual avô? No meu caso é o avô materno, com o qual tive mais contato. Hoje ele faria aniversário se estivesse vivo, então para fazer uma tentativa de tirar a tristeza do coração estou tentando recordar um pouco sobre ele e o quão importante ele é para mim. Este texto já está escrito no bloco de anotação e sinceramente ainda me vem lagrimas nos olhos… Mas…

O que eu sei sobre o meu avô? Não muita coisa. Sei que antes de eu vir ao mundo ele teve momentos muito difíceis, tanto profissionalmente quanto pessoalmente, é o que eu concluo das histórias que eu ouço da minha vó e da minha mãe. Mas conforme os anos foram passando ele foi mudando para melhor, sua personalidade, seu impeto foram modificados para algo mais compatível com a criação de netos. Eu vivia, não no sentido de morar com eles, mas no sentido de estar frequentemente com eles, com ele e a minha vó em Santos, eu gostava de lá, gostava da praia, gostava de ficar com eles. Mas não lembro quase nada de lá… Infelizmente. Mas lembro quando eles mudaram para São Paulo, alugaram um apartamento no mesmo condomínio que eu morava, muito legal isso. Depois eles se mudaram para o prédio da minha bisavó, para ajudá-la.

Lembro também das pescarias, ele me levava para muitas, nem lembro o que pescávamos, tilápia, dourado? Sei lá. Eu gostava de sair, andar de barco, mas não levava muito jeito com a vara de pescar, com os nós e demais apetrechos. Chegou a um ponto que não saiamos mais para pescar, depois que cresci. Ele continuou a pescar durante quase até o dia da sua passagem. Mas agora o nível era outro, ele só pescava em rios na Floresta Amazonica, peixe de couro, coisa realmente pesada. Se meu avó escrevesse ao invés de ter fotografado ele poderia lembrar um pouco Hemingway.

Em determinado momento, meu avô comprou um depósito de materiais para construção, eu ficava bastante com ele lá, eu não me lembro de nenhum diálogo, mas lembro que a companhia dele era simples e boa, sem morais, sem grandes lições, somente agradável. Eu gostava é lógico. Fiquei triste quando demoliram o depósito.

Também tinha o sítio que íamos aos finais de semana. Lugar tranquilo que combinava com ele ainda mais. Momentos contemplando o nada, fazendo quase nada, entre pequenas manutenções e arrumar a antena de TV, o que se mostrava um verdadeiro desafio, até o dia que colocaram uma antena parabólica lá. Depois disso eu não me lembro de muita coisa… Só lembro de alguns almoços de domingo.

Mas quando eu entrei na faculdade teve a fase dos computadores. Ele comprava uns máquinões e eu ia ajudá-lo a usá-las. Ele se virava bem com aquilo. Os computadores foram uma forma que encontramos para estarmos juntos.

A fase mais legal foi a da fotografia, trocávamos ideias e algumas outras coisas, como equipamentos. Ele comprava tantos equipamentos escondidos da minha vó e de todo o resto da família que só foram descobertos depois que ele faleceu.

Meu avô foi fotógrafo no jornal, assim que chamamos o Diário Popular, não lembro em que época, mas foi durante a ditadura militar. Tirava umas fotos muito boas, ainda mais por serem feitas com uma Rolleiflex. Impressionante! Contava das ampliações gigantes que faziam, queria saber mais dessa época conturbada.

Daí que vem a minha paixão por fotografia. Fiquei com a Rollei e com a Nikon F, comecei a fotografar com a última e seu fotometro encrencado. Aprendi muita coisa com ele e com essas máquinas. Lembro-me que minha primeira sessão de terapia foi com a Rollei, que ele mandou limpar e ficar pronta para uso, foi nessa época que tive a minha primeira crise. Infelizmente acho que eu tenho muito o que perguntar para ele. Ainda quando estou a usar o equipamento me ocorre alguma coisa e eu lembro que nunca saberei a resposta pela boca dele.

Vou sentir saudades e acho que não adianta nada escrever sobre isso que a saudades somente aumenta mas também vem uma sensação de orgulho que diz que foi um privilégio ter convivido um pouco com ele. Meu avô foi uma pessoa que passou por muitas dificuldades, mas por isso ele é um grande referencial para mim e eu ainda tenho muito que aprender com ele.

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